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ISSN 2179-7552

Um novo mundo: Profa. Leila da Costa Ferreira, Coordenadora do Grupo de Estudos Brasil-China, relata sua √ļltima viagem √† China e as expectativas do grupo para este ano.

Mariana Ceriani

A convite da Universidade Fudan, na China, a professora Leila da Costa Ferreira, coordenadora do¬†Grupo de Estudos Brasil-China, ministrou uma palestra sobre justi√ßa ambiental nos dias 3 e 4 de dezembro, na ‚ÄúThe 4th Annual Forum for the future world: social justice in transitional societies: China and the world‚ÄĚ, organizado pelo Instituto de Estudos Avan√ßados da Universidade, al√©m de ministrar palestra no ‚ÄúWorld Social Science Frontiers Seminar‚ÄĚ da mesma universidade. A professora, que em novembro assumiu a coordena√ß√£o do grupo, cargo antes ocupado pelo professor Carlos Am√©rico Pacheco, √© graduada em Ecologia pela Unesp, doutora em Ci√™ncias Sociais pela Unicamp, e possui dois p√≥s-doutoramentos no estrangeiro, na Universidade do Texas (EUA) em Pol√≠ticas P√ļblicas e Ambiente e na Universidade de York (Inglaterra) em Teoria Social e Ambiente.

Em entrevista para o¬†site do CEAv,¬†a professora comenta sobre a experi√™ncia de palestrar em um pa√≠s que possui cultura, costumes e l√≠ngua diferenciados, os desafios frente ao novo cargo, a import√Ęncia de estimular a pesquisa na Unicamp sobre a China e as principais diferen√ßas entre as pol√≠ticas ambientais do Brasil e da China.

 

A senhora foi convidada para ministrar uma palestra na Universidade de Fudan sobre justiça ambiental no Brasil e na China. Como foi feito o convite? Você já tinha contato com a Universidade?

√Č a segunda vez que eu vou √† China. Na primeira vez, fiquei um m√™s na ‚ÄúJiao Tong University‚Äô‚Äô e viajei bastante pelas grandes, pequenas e m√©dias cidades. Dessa vez, a Fudan University me convidou, atrav√©s do professor Pedro Paulo Funari, para ministrar uma palestra sobre Justi√ßa Ambiental em Sociedades em Transi√ß√£o na China e no Mundo, na Confer√™ncia Internacional citada acima, realizada pelo Instituto de Estudos Avan√ßados da Universidade. O tema da palestra foi sobre as quest√Ķes ambientais no Brasil e na China.

E como foi a interação com os alunos e professores da Universidade? Como foi a receptividade em relação a este tema?

Eles respeitaram muito as minhas convic√ß√Ķes. Eu estava um pouco constrangida, porque fazia uma cr√≠tica √† posi√ß√£o chinesa na 17¬™ Confer√™ncia da ONU sobre Mudan√ßas Clim√°ticas (COP-17), que acontecia justamente na mesma semana em que eu viajei √† China, e para minha surpresa, muitos concordaram comigo, principalmente os alunos. Eles est√£o muito interessados na quest√£o ambiental, fizeram muitas perguntas, e os colegas chineses concordaram com os t√≥picos apresentados por mim em rela√ß√£o √†s quest√Ķes ambientais chinesas.

Como e quando você se interessou em estudar a China na sua área de atuação, que é a problemática ambiental?

Na verdade, foi a minha √°rea de pesquisa que me proporcionou um conhecimento mais aprofundado sobre a China. A Unicamp possui um conv√™nio com o programa Top China, do Santander Universidades, que de dois em dois anos seleciona alguns professores e alunos da Unicamp e de outras universidades do Brasil para ministrar cursos em duas universidades na China. H√° uns dois anos, o NEPAM (N√ļcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais), a pedido da reitoria, me indicou para participar do programa, pois o tema de 2009 era justamente a quest√£o ambiental, e eu aceitei. √Čramos 10 professores brasileiros e 10 professores chineses, e cada professor levou cinco alunos para participarem. Eu era a √ļnica cientista social e ministrei um m√≥dulo na Universidade Shangai Jiao Tong sobre pol√≠ticas ambientais brasileiras e a quest√£o ambiental na Am√©rica Latina. L√° aprendemos alguma palavras em mandarim, alguma coisa sobre a educa√ß√£o e a cultura chinesa, e tamb√©m visitei v√°rias cidades do pa√≠s.

Quando retornei da viagem, o Professor Pedro Paulo Funari, coordenador do CEAv (Centro de Estudos Avançados), me convidou para participar do Grupo de Estudos Brasil-China. Faz um ano e meio que eu participo do grupo e é extremamente interessante, estou cada vez mais interessada em aprender sobre este universo. Conhecemos muito pouco sobre a China na Unicamp, e por isso, temos que formar uma massa crítica de sinólogos (estudiosos da China).

Recentemente você assumiu o cargo de coordenadora do grupo de Estudos Brasil-China do Centro de Estudos Avançados. Como esta viagem contribuirá para os desafios frente a esta nova posição?  

√Č um grande desafio coordenar esse grupo, porque n√£o √© uma tarefa trivial. O grupo √© de alto n√≠vel e me honra muito coorden√°-lo, mesmo porque a China √© um mundo que estamos tentando entender, tanto do ponto de vista pol√≠tico e cient√≠fico como do ponto de vista cultural. Ainda estamos ‚Äúengatinhando‚ÄĚ na Unicamp para adentrar neste novo mundo. De qualquer jeito, eu, como nova coordenadora, vou procurar incentivar pessoas que tenham interesse de pesquisa na China. Temos que formar uma massa cr√≠tica de jovens que v√£o estudar este pa√≠s, que v√£o falar mandarim, e a√≠ sim, ser√£o sin√≥logos da Unicamp. A Unicamp est√° se internacionalizando bastante, portanto, acredito temos todas as condi√ß√Ķes necess√°rias.

O que voc√™ p√īde perceber durante as viagens √† China e estudando sobre o tema, a respeito das principais diferen√ßas entre as pol√≠ticas ambientais do Brasil e da China?

O Brasil tem uma posi√ß√£o muito mais globalista em rela√ß√£o √†s quest√Ķes ambientais, no sentido de que estamos muito mais preocupados com a biodiversidade e as mudan√ßas clim√°ticas, e os governantes est√£o se colocando internacionalmente em rela√ß√£o a essa problem√°tica. Ali√°s, eu acho que a Presidente da Rep√ļblica Dilma Rousseff tem um grande trunfo na m√£o, agora que ocorrer√° o Rio+20¬†,¬†a¬†Confer√™ncia das Na√ß√Ķes Unidas¬†em¬†Desenvolvimento Sustent√°vel aqui no Brasil . J√° pa√≠ses como a China e a √ćndia, t√™m uma postura mais nacionalista.

Nesses eventos internacionais, alegam que a culpa das mudan√ßas clim√°ticas e a deple√ß√£o de nossos recursos ambientais √© dos pa√≠ses mais industrializados, e que por isso, somente eles devem arcar com o preju√≠zo. √Č √≥bvio que essa afirma√ß√£o est√° correta, os pa√≠ses mais industrializados realmente forame s√£o os mais poluidores do mundo, mas a China √© a segunda economia mundial. Ent√£o, se a China n√£o fizer alguma coisa, nenhuma solu√ß√£o pode ser equacionada. A China deveria ter uma posi√ß√£o mais globalista.

Enquanto estive na Jiao Tong University, lecionei no departamento de ciências ambientais e meus colegas eram tecnólogos muito competentes, porém pouco críticos em relação à realidade chinesa. Agora, na Fudan University, entrei em contato com cientistas sociais, sociólogos, antropólogos, e fiquei muito bem impressionada com a sociologia chinesa. Eles possuem uma posição muito crítica, sociologicamente falando. Então quer dizer que o debate existe.

Quanto ao Brasil devemos lembrar que somos um pa√≠s imenso, assim como a China. Temos uma popula√ß√£o muito concentrada nas regi√Ķes urbanas e litor√Ęneas, uma caracter√≠stica semelhante √† da China. As nossas grandes cidades tamb√©m s√£o muito polu√≠das: a regi√£o metropolitana de Campinas, a de S√£o Paulo, entre outras regi√Ķes metropolitanas do pa√≠s est√£o em situa√ß√Ķes cr√≠ticas do ponto de vista ambiental sem falar na quest√£o do desmatamento .

E em relação às pesquisas nesta área, quais são as principais diferenças entre Brasil e China?

Uma grande diferen√ßa √© que a √°rea de ambiente e sociedade no Brasil acompanha o debate internacional. A sociologia ambiental, a ci√™ncia pol√≠tica ambiental, a antropologia ambiental, e a ecologia, no pa√≠s tem se desenvolvido muito. N√£o √© a toa que n√≥s temos no Brasil 50 doutorados em meio ambiente interdisciplinar. E a Unicamp est√° entre os cinco melhores. A China n√£o tem uma massa cr√≠tica em rela√ß√£o √† problem√°tica ambiental, principalmente em rela√ß√£o √†s dimens√Ķes humanas da problem√°tica. Os professores da Fudan s√£o altamente internacionalizados, mas nenhum deles √© especialista na quest√£o ambiental, eles s√£o especialistas em outros grandes temas, principalmente justi√ßa social. N√≥s temos nesta √°rea o que dizer √† China. Por isso que eles t√™m tanto interesse na √°rea ambiental brasileira. √Č diferente da √°rea de tecnologia, a qual eles possuem muita experi√™ncia. Na √°rea das dimens√Ķes humanas eles ainda est√£o caminhando. A √°rea da sociologia ambiental chinesa, por exemplo, √© ainda muito incipiente. √Č facilmente percept√≠vel a diferen√ßa entre a sociologia ambiental latino americana, a brasileira e a chinesa, no sentido de que j√° temos muito mais tradi√ß√£o nessa √°rea.

 

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