Simon Scheartzman
“O ensino
médio no Brasil é formal, acadêmico,
voltado para
o vestibular. Não atende jovens com outros
interesses”
Está
no ensino médio o gargalo mais crucial da
educação no Brasil. Esse entendimento
vem se generalizando entre pesquisadores e autoridades;
o que os preocupa são dados como os da evasão
dos estudantes – no primeiro ano ingressam
3,6 milhões de jovens; concluem o curso 1,8
milhão; ou os do Ideb, relacionados ao desempenho
dos estudantes, que mostram os matriculados no terceiro
ano do ensino médio com nível de conhecimento
inferior ao desejado para o último ano do
ensino fundamental. Desinteresse dos alunos, carência
de professores, especialmente de Física e
de Química, baixa cobertura na faixa etária,
dimensão diminuta do ensino técnico
– com tudo isso, a expansão do número
de brasileiros com formação superior,
capazes de atender às necessidade de desenvolvimento
do País, parece uma meta de difícil
alcance.
O ensino
médio e as dificuldades que enfrenta têm
sido tema frequente de apresentações
e estudos de Simon Schwartzman, o entrevistado desta
edição de Ensino Superior Unicamp.
Schwartzman é doutorado em Ciência
Política pela Universidade da Califórnia-Berkeley;
lecionou na Universidade de Colúmbia, em
Harvard, na Universidade de São Paulo e na
Universidade Federal de Minas Gerais – da
qual foi afastado depois do golpe de 1964. De 1994
a 1998 presidiu o IBGE. Seu currículo de
pesquisador mostra seu interesse persistente por
temas relacionados à produção
do conhecimento, à ciência, à
tecnologia e ao papel da universidade para o desenvolvimento.
Sobre universidade e desenvolvimento na América
Latina, coordenou em 2006-2007 um estudo financiado
parcialmente pela Fundação Ford.
Atualmente
pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho
e Sociedade, Schwartzman mora no Rio de Janeiro,
onde concedeu esta entrevista a Mônica Teixeira
no dia 7 de junho de 2010. Para ele, a diversificação
é uma saída para os impasses do ensino
médio. Leia:
Qual o desafio que o ensino médio
coloca para o Brasil atualmente?
Temos alguns problemas básicos no ensino
médio. Uma peculiaridade do Brasil, na comparação
com outros países da América Latina,
com a Europa e com os Estados Unidos é o
fato de o nosso sistema de ensino médio ser
praticamente um só. Há um setor de
ensino profissional ou técnico muito pequeno;
isso não dá alternativas para os estudantes
que queiram seguir diferentes caminhos. A necessidade
de um sistema diversificado tem a ver com os interesses
diversificados das pessoas; e também com
o fato de que a educação básica
é muito desigual, e que nem todas as pessoas
têm condições de fazer o mesmo
tipo de curso médio. Pelo fato de o modelo
ser único – o modelo tradicional, acadêmico,
ele mesmo com uma série de problemas específicos
–, parte das pessoas não consegue acompanhar
o programa e não chega ao final; ou então
chega ao final com tantas dificuldades que não
tem condições de continuar a estudar
e de seguir uma atividade profissional adequada.
Temos, assim, um problema de diversificação;
e o sistema predominante, que é quase o único
que existe, tem vícios e defeitos, decorrentes
de seu conteúdo muito formal e do modelo
muito antiquado de ensino, enciclopedista. Há
uma carga muito grande de cursos em que se pede
ao aluno para decorar e repetir certos conteúdos.
O sistema não é formativo e está
muito condicionado pela competição
para a universidade – o que determina o conteúdo
dos cursos. Os cursos considerados melhores no ensino
médio são aqueles que preparam melhor
para os vestibulares mais competitivos. Essa formação
não é muito adequada.
Quais são os outros
problemas que esse modelo único traz?
Por exemplo: a quantidade de cursos que os alunos
têm de fazer – um pouquinho de química,
um pouquinho de física, um pouquinho de filosofia,
um pouquinho de história – no final,
ele não aprende nada. Outro problema: o curso
é um ritual de repetições.
O aluno precisa ser capaz de papaguear o que está
escrito no livro. Em poucos casos isso se transforma
realmente em uma aprendizagem. No modelo britânico,
por exemplo, há o A-level. O aluno escolhe
três temas e trabalha neles: ele se prepara
durante o ensino médio naqueles conteúdos
que escolheu. Digamos, matemática, química
e inglês; ele vai se aprofundar, tem a oportunidade
de tomar conhecimento daquilo lendo e discutindo;
no processo de aprofundamento, o aluno tem a possibilidade
de ganhar competência, de ganhar capacidade.
O ensino médio norte-americano é desigual;
há coisas boas e coisas ruins. O britânico
é melhor. O sistema francês também
é bom, embora, para o meu gosto, seja um
pouco rígido. O nosso é uma tentativa
ruim de copiar o sistema francês. Se a cópia
fosse benfeita, o aluno teria uma boa iniciação
à ciência, receberia boa educação
de bons professores de matemática, de física.
Mesmo assim, hoje em dia, em que os campos de conhecimento
são muito vastos, não se pode esperar
que a pessoa aprenda tudo. Aprender alguns teoremas
de física ajuda a pessoa em alguma coisa?
Ela não aprende física moderna, pois
a matemática no ensino médio não
é suficiente; para que serve isso então?
Se o aluno realmente for fazer uma carreira tecnológica,
precisará se aprofundar mais; se vai fazer
uma carreira em direito, não precisará
daquilo. Pode-se argumentar que qualquer pessoa
hoje em dia precisa saber matemática. Acredito
que as pessoas tenham de entender as questões
da ciência e da tecnologia – porque
são importantes, porque têm um papel
na sociedade moderna. Mas aprender as fórmulas
da química, os modelos matemáticos
da física, não sei se ajuda. É
necessário dar opções às
pessoas. Dadas as opções, o aluno
tem condições de se aprofundar em
áreas mais delimitadas. A Lei de Diretrizes
e Bases inclui essa concepção de dar
alternativas. Mas, na prática brasileira,
o que vem acontecendo é colocar mais matérias
obrigatórias – filosofia, sociologia...
–, o que vai matando a ideia da flexibilidade.
O senhor mencionou antes
que a competição para a universidade
é um problema para o ensino médio...
Sim. Em áreas como medicina e engenharia
o vestibular é feito para eliminar pessoas
e, por isso, exige um conhecimento muito detalhado
– o que funciona na seleção.
Mas, se o curso médio é todo montado
para formar pessoas para o vestibular, há
prejuízo para aqueles que não pretendem
prestar vestibular. Outro problema que se soma aos
anteriores é o fato de não termos
professores devidamente formados para dar esses
conteúdos. Se o professor não tem
a capacidade de entender o assunto, não há
jeito de o aluno aprender. É necessário
apoiar o professor da melhor maneira possível.
À medida que avança no ensino médio,
o aluno precisa cada vez mais de professores que
conheçam seu assunto e tenham paixão,
interesse, motivação pelos conteúdos
que estão lecionando. Temos um problema sério
de recrutamento de professores nesses níveis.
Há falta de professores bem formados; as
universidades públicas não têm
interesse em formar professores, elas desvalorizam
a formação do professor. A atividade
de professor de ensino médio se tornou uma
opção para quem não conseguiu
outra coisa, o que cria um professor desmotivado
e mal formado. Há mesmo carência de
professores.
Quais soluções
haveria para a carência de professores?
É preciso abrir a carreira do professor do
ensino médio. Um jovem estudante de medicina
quer ser médico, não quer ser professor;
mas será que ele não quer dar aula
de biologia e ganhar um dinheiro extra durante o
curso?
O ex-governador de São Paulo José
Serra propôs isso, uns dois anos atrás,
à Secretaria Estadual de Educação,
pensando em alunos de engenharia.
Há quem fique nervoso com isso... Para ensinar
matemática ou física, na verdade esse
é um caminho muito interessante. Pode-se
perguntar se esse estudante vai ter a necessária
didática. Mas não há nenhuma
garantia de que os cursos de didática hoje
requeridos nos programas de licenciatura realmente
preparam os futuros professores para a sala de aula.
Se o estudante gostar da matéria, se tiver
um bom livro para seguir, se o material estiver
preparado, os conhecimentos de didática podem
ser ensinados de forma prática, sob a supervisão
de um professor mais antigo, e esses jovens podem
se sair bem. Além disso, um professor jovem
pode se tornar, para os estudantes, um “role
model”, um modelo de atitude e envolvimento
com o trabalho intelectual que os estudantes podem
querer tomar para si; isso é tão ou
mais importante que a transmissão do conhecimento.
Pode acontecer de o jovem professor se interessar
de tal maneira pela carreira docente que desista
de fazer medicina ou biologia; ou que passe quatro
anos lecionando e depois continue sua carreira de
médico; outra pessoa virá dar aula
no lugar dele. Essa abertura do sistema de recrutamento
pode ser muito importante para melhorar a qualidade
do professor que entra no ensino médio. Hoje,
o que temos são, muitas vezes, pessoas que
fizeram seus cursos em uma faculdade de má
qualidade, que não conseguiram outra coisa,
que não aprenderam direito aquilo que vão
lecionar e que estão frustrados, esmagados
pelo que estão fazendo – não
se pode ir longe com isso. Temos um problema com
o professor, que é sério e tem a ver
com a carreira docente. Além disso, há
a forma como o currículo está organizado.
Voltando à questão
da diversificação...
Há dois modelos no mundo. O europeu, tradicional,
cria escolas diferentes. A legislação
dos anos 1930, do Gustavo Capanema [ministro da
Educação de 1934 a 1945, na gestão
de Getúlio Vargas. N. da E.], falava em ensino
industrial, ensino técnico, ensino agrícola
e ensino secundário. Era a ideia tradicional,
europeia, daqueles anos: o filho do operário
vai fazer ensino técnico; o filho da classe
média, da burguesia, vai fazer ensino acadêmico.
Os alemães tiveram esse sistema funcionando
bem durante muito tempo; quem cursava o ensino técnico
se tornava um trabalhador especializado muito competente,
embora não tivesse acesso à universidade.
Hoje, o modelo europeu tem problemas de dois tipos.
Primeiro, o tipo de formação do ensino
técnico não é mais aquele formação
baseado na divisão entre trabalho manual
e trabalho intelectual; a dicotomia está
desaparecendo com a automação, com
a informática. Além disso, há
um aspecto de imobilidade social muito complicado
– o sistema decide, aos 12 anos de idade,
que vida o menino vai viver, que lugar ocupará
na sociedade. A principal virtude do ensino profissional,
no caso europeu, é que ele está fortemente
vinculado ao setor produtivo e às tradições
das corporações de ofício,
no sistema do mestre e do aprendiz. O jovem vai
para a fábrica, trabalha sob a orientação
de um mestre de ofício, ao mesmo tempo em
que completa alguns cursos na escola. Os conhecimentos
de tipo técnico e científico não
são ensinados de forma teórica, mas
sobretudo no chão da fábrica. Se o
sistema se desliga do setor produtivo, não
há nem uma coisa nem outra. O problema da
maioria das escolas técnicas no Brasil é
que elas ficam em uma espécie de vazio: não
têm o conteúdo acadêmico e também
não têm o conteúdo profissional
adequado. Os bons exemplos de ensino profissional
são aqueles em que há uma ponte mais
firme entre o ensino, as empresas e a atividade
produtiva. Existem exemplos interessantes de escolas
agrícolas em que o aluno trabalha no campo;
outros em que há relações com
a indústria e os alunos têm contato
com ela. O Centro Paula Souza faz isso bem em São
Paulo; mas isso é restrito. Seria bom se
tivéssemos no sistema mais escolas técnicas
fortemente vinculadas ao setor produtivo.
Qual é o outro
modelo?
É o modelo mais norte-americano, que os alemães
também estão tentando – a Gesamthochschule
alemã. É uma escola integrada, compreensiva,
frequentada por diferentes tipos de estudantes;
dentro da escola há oferta de alternativas
de formação. Com isso, o estigma diminui
e se permite ao aluno fazer programas diferentes
e ajustáveis às suas perspectivas
e possibilidades. Há vários níveis
de matemática; o aluno que faz uma matemática
mais exigente poderá se candidatar a um curso
de engenharia, por exemplo; quem faz Matemática
I não poderá. Dessa forma, o aluno
tem opções, alternativas de formação.
Não é simples, no entanto, a mesma
escola ser capaz de fazer bem coisas diferentes.
É complicado – esses diferentes tipos
de ensino têm culturas muito diferentes. Não
há uma solução óbvia.
O Brasil teve uma experiência, no passado,
de exigir que todos tivessem uma formação
tecnológica, profissional, ao final do ensino
médio. Esse foi um projeto fracassado da
ditadura. A ideia não era ruim, mas se tornou
mais uma obrigação burocrática
para a escola.
O ensino médio
deve ter terminalidade?
Não penso que todos tenham de sair do ensino
médio com uma profissão. O mercado
de trabalho muitas vezes não exige uma profissão
técnica específica. Boa parte das
ocupações exige competências
genéricas – vendedor, por exemplo:
ele precisa saber falar, escrever e ler; são
competências genéricas de ensino médio.
Não é trivial falar e ler direito,
isso exige pelo menos oito anos de escola; mas não
é uma competência específica.
É muito útil dominar ferramentas de
informática. Não há necessidade
de um ensino especializado, totalmente técnico;
para fazer uma especialização benfeita,
seria necessária uma ponte com o mercado
– por isso o ensino técnico não
pode crescer muito, pelo fato de não haver
muitas parcerias desse tipo a ser feitas. Na medida
em que parcerias puderem ser feitas, devem ser feitas.
Dar alternativas às pessoas no ensino médio
evidentemente tem impacto no ensino superior. Se
o aluno quiser continuar, a formação
que teve abrirá a possibilidade de ele fazer
algumas coisas e não outras. O ensino superior
também tem de se diversificar para atender
um público diferenciado – uma característica
presente em todos os países em que o ensino
superior se massificou. Esse modelo de ensino superior
muito acadêmico, de padrões acadêmicos
altos para todo mundo, é um modelo tradicional
elitista, de quando 5% da população
cursava o ensino superior. Quando se busca ter 20%,
30%, 50% da população no ensino superior,
é necessário um ensino superior muito
diversificado. Diferentemente de 40, 50 anos atrás,
espera-se, por exemplo, que as jovens façam
uma faculdade; há uma pressão geracional,
todo mundo vai para a faculdade... Tem de haver
um leque de opções. É difícil
fazer essa transição de uma concepção
de educação muito elitista para uma
educação mais ampla, que pode atender
a uma população diferenciada. Temos
uma situação em que o País
massificou boa parte do ensino médio e superior,
mas seu formato ainda é elitista e tradicional.
O ensino médio já é bastante
grande no Brasil – as pessoas demoram para
completar, mas quase 60% da população
termina o ensino médio, ainda que se termine
mais tarde, que se leve mais tempo. Não alcançamos
ainda 100% de cobertura no ensino médio como
deveríamos. Mas houve um crescimento muito
grande nos anos 1990, que agora estagnou. A cobertura
do ensino superior ainda é pequena se comparada
à de outros países, mas, com quase
6 milhões de estudantes nesse nível,
já é um sistema massificado, muito
diferente de 20 ou 30 anos atrás.
Sem concluir o ensino
médio as pessoas conseguem se empregar?
O mercado de trabalho está muito exigente
em relação ao ensino médio,
tem mais dificuldade de conseguir emprego quem chegou
perto de concluir o ensino médio e não
concluiu. Quem não tem qualificação
nenhuma aceita trabalho não qualificado.
Quem tem uma qualificação mais ou
menos quer um emprego melhor – e não
consegue. Esse é o grupo mais afetado pelo
desemprego.
Há muita evasão
no ensino médio – 3,6 milhões
ingressam nele, 1,8 milhão concluem. É
uma situação de fracasso. Fala-se
no desinteresse dos jovens; e o senhor menciona
uma inadequação do currículo.
O fracasso reflete a incapacidade da escola de dar
ao aluno uma educação significativa.
Seja por colocar um programa inacessível,
seja pelo fato de o programa estar desligado do
mundo real do estudante. Por um lado, a escola não
motiva; por outro, existem pressões, como
a necessidade de trabalhar – à medida
que o tempo vai passando, ela vai ficando mais aguda:
aos 13, 14 anos, essa pressão não
é tão importante como aos 18. Há
outras razões para o abandono. Uma delas:
boa parte do ensino médio é oferecida
à noite. Quando o aluno trabalha, é
uma necessidade, mas às vezes o problema
não é do aluno, é da escola,
cujo prédio, durante o dia, está ocupado
com o ensino fundamental. Nos cursos noturnos, o
aluno está mais cansado, chega mais tarde
e sai mais cedo. Há um esvaziamento da escola,
cada vez mais ela é um ritual a ser completado
para ter um papel, que às vezes fica inacessível.
Isso gera uma situação de desalento.
Há crise no ensino
médio de outros países?
Lembro de um seminário em Oxford a respeito
de um livro meu sobre a educação no
Brasil. Um brasileiro fez uma apresentação
muito deprimente sobre a educação
no Brasil. O professor inglês que era um dos
organizadores do seminário fez a seguinte
observação: “Não se preocupe,
a educação é ruim no mundo
inteiro”. Problemas, temos em toda parte –
há dificuldades na Europa, por exemplo, sobre
como sair do sistema dual para um sistema mais abrangente;
nos EUA, o ensino médio é visto como
muito desigual. Existem high schools dedicadas a
preparar alunos para as universidades, outras dedicadas
à formação técnica (“vocational”),
mas a maioria são escolas de educação
geral, que oferecem cursos preparatórios
para a universidade para estudantes mais avançados,
cursos de formação geral para estudantes
de desempenho médio e cursos de recuperação
para os que estão em situação
pior. Os estudantes podem combinar diferentes tipos
de curso conforme suas habilidades e seus interesses.
A ideia de reprovar o estudante não existe,
os alunos avançam conforme as condições
de cada um, e com isso a evasão é
bem menor. Em todo o mundo há problemas –
o que não nos exime de enfrentar os nossos.
Por onde o senhor começaria?
Tentaria simplificar o currículo, para que
fique mais relevante e apresente mais opções;
e melhoraria a qualidade do professor. É
preciso recrutar professores melhores.
Ensino médio é
um problema dos estados. Como o governo federal
pode influir?
A capacidade do governo federal de influir não
é alta. Ele tem poucas escolas – as
escolas técnicas, que são boas, mas
são poucas e caras, e que agora estão
virando universidades... O governo federal pode
influir criando modelos, standards, criando legislação
mais adequada; pode também criar programas
de incentivo para aspectos específicos. A
gestão da escola não pode ser federal,
para que cada escola tenha a maior autonomia possível.
Podem-se criar sistemas de incentivos de diferentes
tipos e criar uma legislação menos
opressora do ponto de vista do currículo,
dos conteúdos.
O Enem é boa política?
Sim. Antes do Enem havia uma situação
em que não se sabia o que significava ter
um diploma de ensino médio. O Enem foi uma
tentativa de estabelecer um padrão de referência.
Pode-se criticá-lo – há tantos
problemas no Enem atual quanto no anterior. Mas
a ideia de haver padrões claros de referência
é o importante. Não importa onde o
aluno cursou o ensino médio; é preciso
saber que qualificações adquiriu.
Isso requer um tipo de avaliação externa
como o Enem.
Nesse sentido, o Enem
normatiza.
Isso, é uma referência. Mas, de novo,
se a referência for única, mata a diversificação.
É preciso criar uma gama de alternativas,
todas com avaliações também
independentes, também externas, mas não
únicas. A França tem o baccalaureat,
a Alemanha tem o Abitur, a Grã-Bretanha tem
o A-level. No caso deles, não é uma
prova só; os examinadores externos vêm
à escola, são avaliações
mais ricas e qualitativas. Na França, além
do baccalaureat tradicional, há outros tipos
de qualificação, quatro ou cinco diferentes,
e o aluno pode se preparar para um deles. Na Grã-Bretanha
o aluno escolhe os A-levels que quer fazer. Seja
qual for a escolha – e a escola pode optar
entre preparar alunos para uma ou para outra –,
isso dá uma certificação, uma
referência, o que facilita também a
seleção dos alunos pela universidade
– quando ela recebe o aluno, pode levar em
consideração o que ele aprendeu na
escola.
O senhor mencionou uma
mudança no Enem. Hoje ele enfatiza mais a
avaliação do conteúdo do ensino
médio; isso é correto?
Sim, é importante. Se o Enem avaliar só
as competências, em vez de também avaliar
o conteúdo, acabará se tornando em
boa parte um exame de língua – um aluno
capaz de ler e pensar mais agilmente se sairá
bem. Para matemática, precisaria ter um pouco
de conhecimento; no mais, se pensar um pouco mais
inteligentemente, com mais informação,
irá bem. Isso está fortemente ligado
à posição econômica da
família; por isso, não dá à
escola nenhuma responsabilidade por aquilo que ela
tem de ensinar. Se o Enem avaliar se o aluno conhece
ou não história do Brasil, geografia
etc., cria-se uma obrigação para a
escola. Claro que há o risco de incentivar
a decoreba – mas é possível
também avaliar o conhecimento de conteúdos
sem exigir a memorização. Por exemplo,
pode-se pedir ao aluno que resolva um problema de
matemática ou mostre entender alguns episódios
importantes da história contemporânea
sem que tenha de decorar fórmulas ou fatos,
mas faça uso de conceitos aprendidos na escola.
A escola fica então com a responsabilidade
de ensinar alguns conceitos básicos de várias
áreas do conhecimento. A questão que
se coloca aí é se a prova está
benfeita. Ao mesmo tempo, não há por
que ter preconceito contra a memorização
– um aluno que termina o ensino médio
deve saber quais são as capitais dos estados
brasileiros, quem foram os presidentes da República
nos últimos 30 anos, quais são os
principais produtos que o Brasil exporta e quais
países participaram de que lado na 2ª
Guerra Mundial, por exemplo. O problema do Enem
é exigir que todos os alunos façam
a prova toda. O exame tem três partes, três
áreas diferentes; as universidades podem
dar pesos diferentes às diferentes partes.
Mas isso não basta. É preciso que
o aluno possa dizer: vou fazer a parte tecnológica,
não a parte humanística ou a área
biológica. Isso não existe ainda;
penso que deveria existir. A ideia de criar standards
externos de referência é boa. Os norte-americanos
têm o SAT [Scholastic Aptitude Test, ou Scholastic
Assessment Test, usado pelas universidades dos EUA
como um dos critérios de admissão.
N. da E.], que é uma prova similar ao Enem;
os europeus fazem diferente: são exames longos,
que podem ter prova oral, muito mais ricos de conteúdo.
É muito mais difícil operar exames
assim. É mais fácil fazer uma boa
prova centralizada para milhões de pessoas.
Não sei se se pode aspirar a um modelo europeu,
pois não temos toda essa estrutura de professores
avaliadores; o modelo norte-americano me parece
mais apropriado também nesse sentido.
É possível
melhorar o ensino médio sem melhorar o fundamental?
Cada problema é um problema. No ensino fundamental,
o problema é o analfabetismo funcional: muitos
alunos chegam ao final do ensino fundamental sem
conseguir ler. É difícil lidar com
esse aluno no ensino médio. Por isso, a diversificação
é importante – se todos os alunos chegassem
bem à 8ª série do ensino fundamental,
poderíamos pensar que seria adequado para
eles mais três anos de formação
geral – aprender literatura, matemática,
biologia, filosofia. Seria muito bom. Em um país
nórdico, com educação homogeneamente
muito boa, como a Finlândia, por exemplo,
um ensino médio bastante amplo é adequado.
Mas aqui as escolas recebem alunos com muita diferença
de formação. O que fazer com um jovem
de 14 ou 15 anos que terminou mal o ensino fundamental
– que lê pouco, que não sabe
matemática? O que fazer com ele no ensino
médio? Ou a escola tenta recuperar no ensino
médio o que ele não adquiriu antes
– o que é possivelmente muito difícil
–, ou tenta dar a ele uma educação
a partir do que ele tem. Em vez de aprender um teorema,
fará um trabalho prático em que o
professor pode mostrar a ele a matemática
que está ali. É preciso ir pela via
mais prática. O famoso Heckman, Prêmio
Nobel de Economia [o norte-americano James Heckman,
premiado em 2000. N. da E.], tem escrito muito sobre
educação infantil; ele mostra que
muito da capacidade de aprender das pessoas se define
muito cedo – até os 4, 5 anos de idade;
se alguém chegou aos 6, 7 anos sem isso,
estará prejudicado pelo resto da vida. Há
muitas evidências nesse sentido. Mas Heckman
também mostra que, além dos conteúdos
cognitivos, há outras dimensões da
educação que têm a ver com o
trabalho de grupo, com atitudes, com comportamento,
e que também são muito importantes.
As escolas também precisam dar essa educação.
No Brasil, temos de ir trabalhando enquanto o trem
está correndo; não é possível
parar o trem. O jovem que está terminando
o ensino fundamental aos 15 anos de idade, que não
teve educação infantil de boa qualidade
– às vezes já está prejudicado
na origem e passou por um ensino fundamental ruim
–, o que fazer com ele? Devemos dar a ele
uma educação que ele tenha condições
de aproveitar, onde ele puder aproveitar. Ele pode
adquirir essas competências do trabalho em
grupo, pode aprender tarefas mais técnicas,
que serão úteis para ele. Mas ele
provavelmente não vai aprender matemática
abstrata, não vai demonstrar teoremas.
Há alguma iniciativa
interessante em implantação no ensino
médio?
É difícil resolver essas questões
centralizadamente. Diferentes municipalidades, diferentes
escolas privadas vão experimentando, tomando
iniciativas e achando caminhos. Não penso
que evoluiremos para um sistema à francesa,
em que todas as escolas ensinam as mesmas coisas
à mesma hora. Esse não é o
nosso mundo. O nosso mundo é o da diversidade,
das iniciativas locais. Ao governo federal cabe
dar estímulo, ajudar a levantar as questões,
oferecer padrões, colocar os problemas, dar
materiais, apoio. E deixar a sociedade encontrar
os caminhos. Alguns municípios vão
à frente, escolas privadas vão à
frente, um vai copiando o outro – esse é
o nosso mundo.
Como o senhor descreve
o quadro do ensino superior brasileiro hoje?
No Brasil, há um pequeno setor de padrão
alto – parte das instituições
públicas e parte das privadas –, menor,
mas que existe; e um setor grande do sistema de
má qualidade, público e privado, muito
orientado para se obter um diploma, que o mercado
ainda valoriza, independentemente do conteúdo.
O setor público não consegue avançar
muito, quase todo o crescimento do ensino superior
vem do setor privado, que detém quase 80%
das matrículas. O setor público é
caro, rígido, burocratizado, controlado por
grupos de interesse. Nele ninguém tem coragem
de mexer. Há coisas boas e ruins nele. Dentro
das mesmas universidades existem cursos mais voltados
para a pesquisa e a formação de profissional
de alto nível, e outros que não vão
além do ensino e de qualidade nem sempre
muito boa. No setor privado a pesquisa praticamente
não existe e predominam os cursos das chamadas
“profissões sociais” –
administração, contabilidade, economia,
direito –, que na prática dão
algo de formação geral nas ciências
sociais (a grande maioria dos formados em direito
jamais consegue passar nos exames da OAB e não
exerce a profissão). O ensino superior tecnológico,
ou seja, de dois anos de duração,
orientado mais diretamente para o mercado de trabalho,
que poderia ser uma alternativa para muita gente,
quase não existe, e o que existe está
sobretudo no setor privado.
O senhor disse que o ensino
público superior não avança.
Como analisa a expansão recente do número
de universidades federais?
Nesse assunto, há vários problemas
diferentes. Um problema é o custo alto dessas
instituições. Quando uma universidade
federal é criada, cria-se imediatamente um
quadro de funcionários regidos pelo Regime
Jurídico Único – as pessoas
são contratadas com níveis salariais
de tempo integral, que predominam no ensino superior,
cria-se a burocracia, nomeia-se reitor, vice-reitor
etc. Resulta em um custo por aluno muito alto e
que não necessariamente leva a um produto
de boa qualidade do ponto de vista educacional –
pois os salários que se pagam no Brasil no
ensino superior público supõem que
o professor seja um pesquisador dedicado integralmente
ao ensino e à pesquisa, quando, de fato,
isso não ocorre, e esse tipo de contratação
acaba afastando os professores da sua atividade
profissional. A melhor opção seria
ter uma política muito mais exigente de contratações
de professores de tempo integral e contratar em
tempo parcial profissionais qualificados que sejam
ativos em suas profissões e possam trazer
para os alunos sua experiência prática
de trabalho. Quando são criadas instituições
federais em qualquer lugar, o risco é recrutar
pessoas muito apressadamente, sem conhecê-las
direito. Como o sistema é rígido,
são pessoas que nunca mais poderão
ser demitidas, nunca mais se poderá mexer
no salário delas. Caem na rigidez institucional,
que é a lógica das instituições
públicas no Brasil. Não sei se faz
sentido investir em criar instituições
que padecem dos mesmos vícios da maior parte
das instituições públicas.
O que se sabe das novas universidades é que
elas funcionam mal, com muito abandono pelos estudantes.
Sem dúvida há um papel do governo
federal e dos governos estaduais de apoiar e dar
condições de educação
superior a quem não pode pagar. Esse papel
pode ser cumprido de várias maneiras –
o Prouni é um exemplo de investimento mais
barato em educação, que utiliza a
rede do ensino privado. Poderíamos ter modelos
diferentes de organização do ensino
público que fossem menos rígidos e
menos burocráticos. Ainda não temos.
Algumas dessas instituições que estão
nascendo agora podem vir a se consolidar; não
se sabe, pois elas estão começando.
Outro problema é não existir uma justificativa
clara para essas instituições. Se
uma instituição está sendo
criada em certo lugar, deveria existir um projeto
para ela – que esclarecesse seus objetivos,
sua concepção fundamental. Se existe,
é muito superficial. Ao se criar por criar
uma instituição, o que se faz é
simplesmente criar emprego para mais gente no serviço
público federal; não sei se é
o melhor investimento que o País poderia
fazer.
Do ponto de vista do desenvolvimento
do Brasil, o que o senhor considera desejável
para o ensino médio?
O ensino médio tem a função
principal de criar pessoas capazes de tomar caminhos
diferentes – por isso a necessidade de diversificação.
Um fenômeno atual no Brasil é as empresas
se queixarem de não encontrar funcionários,
e as pessoas no mercado de trabalho de não
encontrarem trabalho. Há um desencontro;
ele vem porque as escolas não formam as pessoas
com as habilidades desejadas pelas empresas; e as
empresas, por sua vez, tendem a ficar passivas,
esperando as pessoas chegarem, sem se envolverem
também no trabalho de formação
– à exceção de algumas
entre as maiores delas. Seria esperado que o setor
produtivo fizesse mais parcerias na área
do ensino técnico, do ensino profissional.
Isso ainda se desenvolveu muito pouco no Brasil.
Há grande falta de quadros intermediários
no País, gente que saiba operar uma máquina,
um equipamento. Há aqueles que não
sabem nada e aqueles que querem ser doutores. A
função do ensino médio é
formar todo tipo de gente; os que operam máquinas,
por exemplo. Ele tem também a função
de capacitar para o ensino superior – é
um leque de alternativas.
É possível
o Brasil pensar em ter, daqui a dez anos, 20% das
pessoas entre 18 e 24 anos no ensino superior?
Só quando se resolver o grande estrangulamento,
que está no ensino médio. O número
de vagas no ensino superior é maior que o
número de formados no ensino médio.
Ainda que essas vagas no ensino superior sejam apenas
teóricas, autorizações dadas
pelo governo federal que a instituição
pode vir a usar, não existe a cadeira vazia
na sala de aula. Se aparecer o estudante, eles botam
a cadeira. De qualquer maneira, o ponto de estrangulamento
do ensino superior é o ensino médio.
Não adianta forçar a expansão
do ensino superior se o ensino médio não
formar gente.
Em sua opinião,
para o bom desenvolvimento do ensino superior brasileiro
é desejável que o governo organize
um programa para o País ter algumas universidades
de classe mundial?
O Brasil vem diminuindo o investimento em estudo
no exterior. Já demos mais bolsas para o
exterior que atualmente; há uma concepção,
a meu ver perigosa, de que não precisamos
mais do exterior. Estamos cada vez menos internacionalizados.
Ao contrário, há um processo de “provincianização”
do ensino superior. O avanço muito grande
que tivemos na pós-graduação
nos levou, hoje em dia, a uma situação
paradoxal. Veja um caso: dois dos melhores programas
de pós-graduação em economia
no Brasil estão na PUC e na Getúlio
Vargas, no Rio de Janeiro. Esses dois programas
são tão bons que os melhores alunos
do mestrado ingressam nas melhores universidades
americanas – Chicago, Princeton, MIT etc.
Por isso, eles formam poucos doutores. Resultado:
ambos os programas foram rebaixados pela Capes:
tinham nota 7, agora têm nota 5. Foram rebaixados
porque não formam doutores. É interessante.
Pode-se discutir a orientação de ambos
os programas; mas a GV e a PUC são duas das
poucas instituições no Brasil que
formam economistas no mais alto padrão internacional.
Ambas têm forte vinculação internacional;
e foram rebaixadas. Países como a Coreia
do Sul, por exemplo, que também desenvolveram
seus programas de pós-graduação,
hoje mandam mais gente para fora. Claro que é
preciso criar as condições de receber
as pessoas de volta. Uma vez escrevi um artigo sobre
o porquê de a USP não ser uma instituição
de padrão internacional, que ela teria condições
de ser; mas teria de fazer desse objetivo uma prioridade.
Algum tempo atrás, houve uma decisão
na USP de exigir que todas as teses fossem apresentadas
em português; mas não se pode ser uma
instituição de padrão internacional
sem aceitar teses em inglês. Outra coisa interessante
no Brasil é que não há incentivo
para receber estudantes internacionais. Se houvesse
uma instituição com um programa forte
de atrair estudantes da América Latina, o
resultado poderia ser muito interessante, muito
importante para o Brasil – politicamente,
intelectualmente. (A Universidade Federal da Integração
Latino-Americana, Unila, que está sendo criada
em Foz do Iguaçu, dificilmente terá
esse papel porque é ideológica e não
tem um projeto acadêmico consistente). Por
que a USP não faz isso? Uma das razões
é que ela não pode cobrar –
nem de alunos estrangeiros. Como não pode
cobrar, os estudantes internacionais acabam sendo
uma chateação – não têm
onde morar, não sabem falar a língua,
precisam se adaptar, não podem vir para o
vestibular... Se pagassem, a USP poderia contratar
equipes, dar casa aos estudantes de fora, montar
um programa de adaptação. O que dá
o caráter internacional a uma instituição
é o aluno. As instituições
norte-americanas, que são as mais internacionais
do mundo, têm muitos alunos estrangeiros –
chineses, africanos, latino-americanos. Isso cria
um ambiente internacional, uma vinculação
com o resto do mundo. O Brasil tem muita gente formada
no exterior que, quando volta, aos poucos vai perdendo
o contato e fica cada vez mais voltado para o próprio
País. É um problema, porque com isso
vamos nos isolando.
No momento em que a tendência
à internacionalização é
cada vez mais forte e mais valorizada...
A política da Capes e do CNPq é, hoje
em dia, muito rígida em relação
ao bolsista voltar ao Brasil. Está bem: o
País gastou um bom dinheiro com o aluno,
ele não pode simplesmente ir embora sem dar
satisfações. Mas veja uma situação
que já presenciei: o aluno terminou o doutorado
no exterior; a universidade oferece a possibilidade
de ele ficar mais um ano e fazer um pós-doutorado;
ele pede licença à Capes. O que acontece?
A Capes diz que não e não permite
que ele renove o visto de intercâmbio. É
muito rígido. Claro que existe o risco de
ele ficar lá; mas isso se combate com a criação
de condições atraentes aqui. Não
adianta formar a pessoa no exterior, exigir que
ela volte e não dar condições
adequadas para o trabalho dela aqui. A ideia de
que não precisamos mais do exterior é
perigosa.