LIZ REISBERG
DO BOSTON COLLEGE
DAVID WATSON
DA LONDON UNIVERSITY
Este
artigo é o Capítulo 11 do livro Leardership
for World-Class Universities: Challenges for Developing
Countries.
Philip Altbach (ed.), Chestnut Hill: Boston College.
Igualdade e Acesso
no Ensino Superior
Introdução
Abordamos aqui a questão
do acesso e da igualdade no ensino superior. Nas
esferas política e acadêmica, o acesso
é entendido como o ingresso de maiores porcentuais
da população que deseja ter uma educação
superior; a igualdade requer que essas oportunidades
estejam igualmente disponíveis a todos os
cidadãos.
A maioria das nações
teve sucesso no ingresso de porcentuais maiores
do grupo de idade tradicional, mas é cada
vez mais evidente que esse aumento não inclui
necessariamente todos os segmentos da população.
Em outras palavras, igualdade não decorre
naturalmente de maior acesso; novos tipos de intervenção
são necessários para abordar os fatores
subjacentes que determinam quem ingressa e quem
permanece até a formatura. Governos e instituições
de ensino superior (IES) começam a enfrentarem
os desafios advindos do recrutamento, da seleção
e da ajuda a estudantes de um espectro mais amplo
de grupos de idade, dedicando atenção
especial aos de grupos sub-representados. A diversidade
crescente obriga as universidades a enfrentar novos
desafios para garantir que a maior parte (se não
todos) desses novos alunos permaneça até
completar seu programa de estudos. A preocupação
pública com a igualdade reflete a expectativa
crescente de que as universidades devem assumir
um papel maior na sociedade, papel este que vai
além da instituição propriamente
dita.
Quase todas as sociedades enfrentam
desigualdades, mas as desigualdades existentes na
educação têm base em diferentes
fatores históricos, sociais e econômicos,
por exemplo, em Botsuana e na Suíça,
nos Estados Unidos e na Índia, na Malásia
e na Austrália. Para avaliar as limitações
e as oportunidades da ampliação do
acesso e garantir a igualdade em cada ambiente deve-se
compreender a cultura e a demografia tanto da sociedade
como do sistema de ensino. Neste caso não
existem soluções universais.
O tema da igualdade levanta questões
maiores sobre a interação da instituição
com a sociedade em torno dela. Qual é a responsabilidade
da universidade na solução de problemas
complexos, muitas vezes enraizados na história
e na cultura? Em que medida as comunidades universitárias
devem refletir os traços da sociedade em
que estão inseridas? Como uma instituição
equilibra obrigações sociais com outros
compromissos? Quem define as obrigações
da universidade e quando elas são cumpridas?
Escolhas difíceis, contudo,
não são um fardo apenas das instituições
individuais, mas de todos os interessados: alunos,
pais, patrocinadores e autoridades. Não se
chega facilmente a um consenso sobre o problema,
nem sobre suas soluções. Além
disso, cada escolha traz consequências, e
muitas vezes exige que, para que os benefícios
sejam estendidos em novas direções,
alguém tenha de perdê-los.
A participação inclusiva
maior e mais abrangente no ensino superior vai muito
além da questão da justiça
social. Em um mundo globalizado, em que o sucesso
econômico depende da capacidade de gerenciamento
de grande quantidade de conhecimento e tecnologia,
o desenvolvimento do capital humano é fundamental.
A prosperidade econômica da maioria dos países
depende de haver mão de obra cada vez mais
instruída e, portanto, o acesso ao ensino
superior deve ser uma prioridade nacional.
Benefícios de cunho não
financeiro para a educação também
têm de ser levados em conta. O Grupo Maiores
Benefícios da Aprendizagem (Wider Benefits
of Learning Group), do Instituto de Educação
do Reino Unido, demonstrou (para nascidos em 1958,
1970 e, agora, 2000) que os alunos das IES no Reino
Unido hoje são mais propensos a ser mais
felizes, mais saudáveis e mais democraticamente
tolerantes (Schuller et al. 2004).
Um estudo recente publicado no
estado de Washington, nos EUA, mostrou o mesmo.
Comparadas às famílias cujos pais
têm um primeiro curso universitário,
as famílias em que os pais possuem somente
diplomas do ensino médio são três
vezes mais propensas a viver abaixo da linha da
pobreza e a necessitar de serviços subsidiados
pelo governo. O nível maior de instrução
não só promove a independência
financeira, e (consequentemente) menor dependência
de programas subsidiados, como também está
relacionado diretamente a indivíduos que
apresentam saúde excelente, menor probabilidade
de atividade criminosa, níveis mais elevados
de participação em eleições
e maior inclinação para realizar trabalho
voluntário (HECB, 2009-2010).
Dados de muitos outros países
reafirmam essas descobertas. Em longo prazo, nenhuma
sociedade pode se beneficiar de negligenciar a educação
da população como um todo, o que inclui
todos os subsetores. O ensino superior tem um papel
importante a desempenhar aqui e, por isso, vem recebendo
maior atenção das autoridades e dos
doadores internacionais.
O escopo do problema
Acesso não garante igualdade
É certo que a participação
na educação superior se expandiu nas
últimas décadas. A maior parte dos
países conseguiu o ingresso de maiores porcentagens
de sua população no ensino primário
e secundário. A urgência de se elevar
ainda mais o nível médio da educação
contribuiu para impulsionar a “massificação”
do ensino superior. Dados da Unesco confirmam os
progressos obtidos no sentido de incentivar jovens
que abandonam a escola secundária a buscar
estudos adicionais. Mundialmente, a taxa de matrícula
aumentou de 19% para 26% (2000 a 2007, respectivamente).
Em países de renda maior, nesse período
a participação passou de 57% para
67% do grupo de idade [adequado]. Em muitos países
o crescimento do ingresso nas escolas foi especialmente
impressionante. No Brasil as matrículas aumentaram
de 16% para 30%; na China, de 8% para 23%; na República
Checa, de 29% para 55% (dados do Unesco Institute
of Statistics em Altbach et al. 2009). Mas as taxas
de matrícula refletem as médias nacionais
e não transmitem dados importantes sobre
o perfil interno de ingresso na escola.
O crescimento das matrículas
não incluiu de modo igual todos os setores
da população. Por isso, muitos países
introduziram programas para incentivar os grupos
sub-representados a se inscreverem, por vezes dando
a esses alunos prioridade por meio de programas
de ação afirmativa, programas de reserva
ou de cotas e programas especiais de financiamento.
Mas o problema não se resolve facilmente,
levando autoridades e estudiosos a analisar mais
detidamente os fatores que influenciam a participação.
Uma avaliação mais aprofundada mostrou
a complexidade do tema igualdade. Os fatores subjacentes
são diversificados e perniciosos e envolvem
circunstâncias que as universidades por si
só não estão em posição
de resolver, como preparação de má
qualidade no ensino fundamental e médio,
renda familiar e nível de educação
dos pais. Muitos desses desafios são abordados
neste artigo.
Como mencionado acima, o progresso
global no aumento da taxa de atendimento escolar
conta apenas parte da história. Os sistemas
de ensino superior vêm se expandindo e se
diversificando em resposta ao aumento da demanda
por acesso mais amplo. É importante examinar
onde a expansão de matrículas acontece.
Todos os que se graduam se beneficiam de seu diploma
universitário, mas o dos formados em instituições
de elite, que desfrutam de benefícios e vantagens
adicionais, têm mais valor. Embora as instituições
de elite tenham feito muito para diversificar suas
matrículas, a maior parte da expansão
ocorreu em universidades menos prestigiadas, em
instituições politécnicas e
de orientação vocacional, em universidades
privadas novas, community colleges e em escolas
que oferecem cursos on-line.
Arum, Gamoran e Shavit (2007)
destacam o debate sobre o significado social de
pessoas de camadas mais desfavorecidas ingressarem
em instituições de “segunda
linha” e menos seletivas e questionam se esse
modelo não continua a privilegiar determinados
setores da população.
Alguns estudiosos sugerem que
a expansão do ensino superior, especialmente
quando ocorre por meio da diferenciação
hierárquica, é um processo de desvio,
por meio do qual membros da classe trabalhadora
são desviados das oportunidades para a elite
e encaminhados para posições de menor
status (Brint e Karabel, 1989). Outros notaram,
porém, que mesmo estudos pós-secundários
de qualidade inferior representam maior oportunidade,
de tal forma que o efeito importante da expansão
pode ser a inclusão (Dougherty, 1994) (p.
2).
Investimentos com foco em instituições-chave
contribuíram para que o sistema de ensino
fosse cada vez mais estratificado na China e demonstram
como a diferenciação pode influenciar
oportunidades futuras e canalizar privilégios.
Alunos, pais e funcionários observaram atentamente
a hierarquia emergente. Uma pesquisa nacional mostrou
que mais de 67% das unidades empregadoras entrevistadas
indicaram que dão muita ou razoável
importância para o prestígio do diploma
ao analisar quem vão contratar. Menos de
5% dos participantes da pesquisa afirmaram não
ser influenciados pela instituição
em que o candidato à vaga estudou. As instituições
chinesas de elite em geral permanecem fora do alcance
dos pobres das áreas rurais (Hong 2004).
A discussão sobre se o
aumento da diversidade dos alunos e das instituições
gera oportunidades ou protege privilégios
permeia a literatura (Morley et al. 2009; David
2007). O que é indiscutível é
que o espaço nas universidades de elite com
foco em pesquisa é limitado e há necessidade
de alternativas de alta qualidade para os indivíduos
que não se qualificam para instituições
de alto nível. Até onde a diferenciação
entre instituições leva à diferenciação
das oportunidades subsequentes na vida é
assunto que merece mais pesquisa.
O que quer dizer igualdade?
A desigualdade tende a se sustentar
se não houver algum tipo de intervenção.
Golden (2006) nos lembra que formas perversas de
ação afirmativa há tempos são
praticadas em escolas de elite, tais como dar prioridade
a filhos de ex-alunos e de doadores em potencial
ricos. Dito isso, muitas sociedades agora lançam
mão de ações afirmativas, cotas
ou programas de reserva para corrigir a distribuição
desigual de oportunidades no passado.
Estudos recentes chamaram a atenção
para as conquistas restritas daqueles que se beneficiaram
do maior acesso e de programas específicos
de admissão (Bowen et al. 2009, Rose 2005).
Isso ressalta o fato de que igualdade quer dizer
mais do que abrir a porta.
A definição de igualdade
é ampla e enfatiza tanto a igualdade de oportunidades
como a igualdade do resultado da educação.
A igualdade na educação é,
portanto, não apenas uma questão de
oportunidades oferecidas no sistema de ensino, mas
tem a ver com os resultados reais das diversas opções
educativas e do desempenho de diferentes grupos
de alunos por intermédio do sistema de ensino
(OECD, 2007).
Um dos muitos problemas é
que a desigualdade de oportunidades com frequência
começa muito antes do ensino superior. Estudantes
em desvantagem por alguma razão (contexto
econômico, preconceito racial, localização
geográfica, deficiência física)
são muitas vezes preparados de forma inadequada
para o estudo de nível superior. A diferença
de preparação é agravada pelo
fato de que alunos das classes média e média
alta frequentemente têm a vantagem não
só de estudar em melhores escolas, mas também
de ter preparo adicional antes de entrar no estudo
superior. Mais tarde as instituições
enfrentam o desafio não apenas de ampliar
o acesso, mas também de lidar com as deficiências
e desvantagens acumuladas ao longo de anos de escolaridade
para que essa população específica
consiga se integrar no nível universitário.
Em suma, a verdadeira igualdade
significa tornar o acesso disponível com
os recursos e o apoio necessários para as
pessoas obterem sucesso e tirarem proveito de novas
oportunidades. São necessários novos
serviços, que proporcionem acompanhamento
acadêmico, apoio e orientação
para auxiliar no que se refere à cultura
social e acadêmica em nível universitário
e apoio financeiro para amenizar as dificuldades
econômicas. Os estudantes provenientes de
grupos desfavorecidos são menos propensos
a ter pais com formação universitária,
capazes de apoiá-los e influenciá-los
no sentido da persistência e do sucesso. As
universidades têm de preencher muitas lacunas
para que haja progresso.
Quem é sub-representado?
A questão da igualdade
desloca a discussão sobre o acesso para além
de cifras e porcentuais. Igualdade implica acesso
justo para todos, mas em quase todos os países
há padrões de sub-representação.
Quem se qualifica como membro de um grupo desfavorecido
é definido por uma ampla gama de características,
como mencionado anteriormente.
Desigualdades na participação
no ensino superior são evidentes ao longo
da vida e incluem diferenças em termos de
tempo (e idade), lugar, sexo, etnia, idioma, classe
social da família, escolaridade dos pais,
tipo de escola, habitação, saúde/deficiência,
atividade criminosa, dificuldades de aprendizagem,
origem familiar e religiosa. Muitas desvantagens
sociais têm efeito na educação
inicial e, posteriormente, na participação
em outras formas de aprendizagem. Renda e educação
dos pais são, particularmente, fatores de
influência. Posição profissional
e tamanho da família também são
relevantes. [...] A qualidade das condições
de vida (tais como a saúde infantil) é
importante para compreender o porquê do desinteresse
pela educação em contraposição
à participação ativa do estudante.
[...] A questão é saber se as autoridades
devem buscar reduzir, de forma direta, as desigualdades
na educação ou buscar reduzir as desigualdades
mais amplas que se refletem na educação
(Gorard et al., 2006).
As causas subjacentes que favorecem
alguns grupos e discriminam outros variam muito;
às vezes são um reflexo de políticas,
às vezes de circunstâncias. O nível
de escolaridade dos pais e a riqueza da família
parecem especialmente influentes.
Alguns indivíduos enfrentam
desde muito cedo obstáculos que os deixam
em desvantagem. Um exemplo no Reino Unido é
o grupo hoje chamado de “crianças ‘cuidadas’”
[“cared-for” children], crianças
nascidas sem perspectiva de ter uma família
estável ou saudável e que ficam sob
responsabilidade do Estado. Elas tendem a crescer
ou em lares adotivos ou em abrigos e são
uma “perfeita tempestade”, no sentido
de que têm pouco apoio para seu desenvolvimento
acadêmico, ambiente familiar imprevisível,
meios financeiros limitados e outras condições
que as colocam à margem da sociedade. Embora
não façam parte de um subsetor-alvo,
elas aparecem com regularidade na parte inferior
de quase todos os testes de progressão escolar
e, mais tarde, estão em desvantagem no momento
da entrada no ensino superior (Jackson et al. 2005).
No mundo todo, diferentes fatores
criam oportunidades desiguais e produzem resultados
desiguais. A minoria chinesa na Malásia não
teve acesso ao ensino superior no passado em virtude
do direito preferencial legal da maioria malaia
– muito embora seus níveis de educação
e renda sejam elevados –; nas provas de admissão,
os árabes israelenses são prejudicados;
comunidades étnicas da Europa do Leste e
Central sofreram com políticas de apoio à
limpeza étnica; não falantes do idioma
africâner na África do Sul eram excluídos,
perpetuando os padrões de participação
baseados na raça (Watson, 2005). Da mesma
forma, os Estados Unidos restringiram, aberta ou
indiretamente, o acesso de diferentes grupos minoritários
em diferentes momentos da história. Apesar
das intervenções dos tribunais em
favor das minorias, negros e hispânicos ainda
representam uma pequena porcentagem do total de
matrículas nas instituições
de ensino superior dos EUA, assim como levam mais
tempo para completar o curso que seus colegas brancos
(Bowen et al. 2009).
A dinâmica social é
fluida; em uma sociedade, o tempo pode mudar quem
está em desvantagem. Houve uma época
em que mal havia mulheres no ensino superior. Hoje
em muitos países há mais mulheres
que homens na universidade. Em um artigo com foco
especial, a University World News (25 de outubro
de 2009) observou que, com exceção
de alguns campos (engenharia, ciência e tecnologia
da informação), as mulheres são
maioria na Europa, na América do Norte, na
América Latina e no Caribe, e nos países
árabes não estão muito atrás.
Atualmente, no grupo de referência da OCDE
(Organização para a Cooperação
e o Desenvolvimento Econômico), apenas alguns
países ainda têm maioria de matrículas
do sexo masculino (Japão, Turquia e Coreia).
Na Suécia, para aumentar o número
de matrículas de homens na universidade houve
até ação afirmativa, recentemente
contestada na Justiça por um grupo de mulheres.
O sexo feminino representa 60% das matrículas
nas universidades suecas (The Chronicle of Higher
Education, 13 de janeiro de 2010). No mundo todo
as mulheres são mais propensas a completar
seus estudos, segundo dados de países da
OCDE – uma mudança interessante em
relação ao passado (OCDE 2009).
Neste caso, novamente, os dados
quantitativos precisam de mais análise. Embora
a paridade de gêneros entre os alunos matriculados
no ensino superior possa parecer visível
na maioria dos países, as desigualdades persistem.
Globalmente, as mulheres estão concentradas
em áreas disciplinares associadas a menores
salários depois da graduação,
tais como educação, assistência
social e saúde, levantando questões
sobre os fatores que influenciam a seleção
dos cursos (Morley et al. 2009).
Ironicamente, no passado as cotas
foram utilizadas tanto para exclusão quanto
para inclusão. Nos EUA, as matrículas
de judeus chegaram a ser limitadas por cotas, particularmente
em instituições de elite, para impedir
uma representação desproporcional
à presença judaica na sociedade em
geral (Golden 2006). Atualmente, sem cotas, os judeus
representam 25% das matrículas de graduação
em Harvard (Harvard Hillel, 2010), embora sejam
menos de 2% da população norte-americana.
Há uma questão similar com estudantes
asiático-americanos, que representam mais
de 40% dos estudantes da Universidade da Califórnia
em Los Angeles, Berkeley, San Diego e Irvine, embora
sejam 12% da população do estado (Chea
2009). Aqui, novamente, a questão é
mais complicada do que pode parecer à primeira
vista, já que nem os judeus americanos nem
os asiático-americanos são grupos
homogêneos. A alta taxa de matrícula
desses dois grupos levanta outra questão:
se o objetivo das políticas de igualdade
é que a participação reflita
o porcentual de um grupo minoritário na população
como um todo e se as universidades devem manter
esses porcentuais e restringir a participação
de certos grupos minoritários adequadamente.
Os fatores que determinam quem
tem acesso ao ensino superior e quem será
bem-sucedido mudaram em muitos países. Hoje
é tão provável que seja o status
econômico quanto a raça, o gênero
ou a etnia que determina quem tem acesso às
melhores oportunidades de ensino pós-secundário
e quem é mais propenso a terminar os estudos.
Na verdade, os alunos são muitas vezes prejudicados
por uma “variedade de marcadores de identidade”
(Morley et al. 2009), em vez de uma única
característica (Schwartzman 2006). Distribuir
oportunidades igualitárias, determinar se
um determinado grupo deve receber atenção
especial na admissão e se a participação
de outro grupo deve ser restringida, tudo isso contribui
para os dilemas da responsabilidade social que o
ensino superior está sendo chamado a enfrentar.
Se o objetivo de maior igualdade é de modo
geral compartilhado, determinar quem e como é
mais difícil de resolver, e diferentes países
adotaram diferentes estratégias na busca
de uma sociedade mais igualitária.
Olhar comparativo sobre
desafios e soluções
Ações afirmativas,
sob a forma de programas de cotas e de reserva,
são utilizadas em muitos países para
lidar com a participação desigual
de grupos minoritários e em desvantagem em
cada sociedade. Na superfície, pode parecer
que esses programas dão espaço para
que grupos sub-representados “alcancem”
os demais, mas eles geralmente são controversos
e há poucas pesquisas sobre seu impacto.
No Brasil, há quatro vezes
mais cidadãos brancos com 15 anos de ensino
ou mais do que cidadãos negros ou de raça
mista (Schwartzman 2006). Curiosamente, houve muito
progresso na melhora do acesso ao ensino médio,
em que as diferenças de participação
por raça são menos significativas.
O progresso no nível de ensino superior continuou
a se desviar em favor dos alunos brancos. Os vestibulares
competitivos para as universidades públicas
mais prestigiadas dão vantagem a uma população
predominantemente branca, com recursos para frequentar
melhores escolas de ensino fundamental e médio.
Há vagas suficientes nas
universidades para acomodar todos os graduados do
ensino médio, mas os estudante de baixa renda
e de minorias raciais (quando se matriculam) não
estão bem distribuídos pelo sistema
de ensino superior (Schwartzman 2006). A ironia
de as famílias de baixa renda terem maior
acesso a instituições pagas ao passo
que estudantes mais ricos se matriculam gratuitamente
em universidades públicas é claramente
compreendida pelas autoridades. Em resposta, o governo
introduziu cotas para reservar espaço no
setor público para mais estudantes não
brancos. Atualmente muitas universidades públicas
acrescem pontos à nota do vestibular de alunos
de escolas públicas que matriculam estudantes
oriundos de grupos desfavorecidos. Na superfície
parece ser um mecanismo para “zerar o jogo”,
mas Schwartzman assinala que isso coloca em desvantagem
os estudantes de famílias de baixa renda
que conseguem se matricular em escolas privadas.
Ele também observa que os alunos que receberam
o benefício de pontos adicionais ingressam
em desvantagem acadêmica, o que irá
aumentar a probabilidade de que desistam do curso
ou (pelo menos) se isolem em cursos de recuperação.
No Brasil, como em outros lugares,
é mais fácil identificar as desigualdades
que resolvê-las. O sistema de cotas causou
controvérsia considerável. Uma resposta
digna de nota foram as mais de 300 ações
ajuizadas contra a Universidade Federal do Rio de
Janeiro por candidatos que se sentiram prejudicados
pelo sistema de cotas. Há preocupações
sobre se o sistema de cotas não vai agravar
a tensão racial no Brasil, e ainda é
difícil determinar como definir raça
(numa sociedade predominantemente mestiça)
(Tavolaro 2008).
Na Índia o acesso à
educação superior expandiu-se rapidamente,
com a criação de muitas instituições
públicas e privadas. Ainda assim, não
só a taxa de frequência escolar é
relativamente baixa – inferior a 15% –
como também as taxas de participação
caem para menos de 6% na maioria dos estados mais
rurais, em que o acesso às instituições
de ensino superior é escasso (Jayaram 2008,
Altbach et al. 2009).
A população da Índia
é extremamente diversificada, e, no passado,
uma hierarquia rígida determinou a alocação
de oportunidades educacionais e econômicas.
O governo da Índia, como o do Brasil, introduziu
uma ação afirmativa sob a forma de
cotas ou reservas, com o objetivo de distribuir
benefícios sociais de forma mais equitativa
para “classes mais pobres e determinadas tribos”.
Desde 1961 a Constituição determina
que 22,5% das vagas no ensino superior devem ser
reservadas para essas classes e tribos. Em alguns
estados é reservado 50% do espaço.
O programa resultou em muito mais diversidade no
ensino superior, mas, como o Brasil, a Índia
tem certa dificuldade para definir com clareza exatamente
quem faz parte dos grupos-alvo. Em consequência,
um efeito algo perverso do programa é que,
embora a classificação pareça
degradante, muitas pessoas assumiram essas identidades
para tirar vantagem das vagas no serviço
público e nas universidades reservadas aos
membros desses grupos (de Zwart 2000).
O programa de reserva também
provocou protestos de estudantes e profissionais,
que advertiram que essa estratégia serviria
apenas para substituir candidatos qualificados por
indivíduos incompetentes e despreparados
(Neelakantan 2006). Mas a questão é
como e se as desigualdades seriam enfrentadas sem
algum tipo de intervenção proposital,
levando um observador a ponderar que “as reservas
são necessárias por causa da incapacidade
inata da sociedade indiana de ser justa e correta
com todos os seus componentes” (Punwani em
Gupta 2006, p. 2).
Apesar de suas complicações,
os sistemas de cotas continuam a ter um grande apelo
internacionalmente, em lugares onde há grandes
desigualdades e não se vê alternativa
melhor. Um palestrante na Universidade do Malauí
observou:
...Eu era parte do grupo que administrava
os vestibulares da Unima em Mzuzu. Se tivesse o
espírito de Deus vivo em você, não
conseguiria impedir uma lágrima de simpatia
em seus olhos ao ver o abismo entre os candidatos
de famílias ricas e os de famílias
pobres, de zonas rurais versus áreas urbanas
e de escolas privadas versus escolas públicas.
Estas e outras preocupações com os
pobres em áreas rurais são a razão
pela qual precisamos de um sistema de cotas como
política de igualdade que beneficie os pobres
rurais e não uma região ou uma tribo
(University World News, 13 de dezembro de 2009).
Por toda a África a participação
no ensino superior permanece baixa em todos os grupos
da população. O progresso visando
à melhoria das taxas de atendimento escolar
continua, mas nessa região as mulheres não
acompanham o mesmo ritmo que os homens. Na Tanzânia
e em Gana, por exemplo, a despeito de programas
de ação afirmativa e de cotas, o grupo
social com maior probabilidade de se matricular
no ensino superior é o de homens oriundos
das classes econômicas altas. Em Gana, onde
as mulheres progridem lentamente, elas também
estão mais propensas a vir da classe mais
rica (Morley et al. 2009). Morley et al. nos lembram
que o gênero tem associações
culturais que as cotas não dissiparão,
e em muitas sociedades africanas se espera que as
mulheres se conformem aos papéis femininos
tradicionais, não compatíveis com
níveis mais elevados de educação.
Os “sistemas de mensagens dos pais”
[“parental message systems”] (p. 61),
mais do que ações afirmativas, parecem
ajudar as mulheres a romper as restrições
da cultura tradicional; o incentivo dos pais é
particularmente influente.
Não há dúvida
de que os programas de cotas, de reserva e de ação
afirmativa abriram mais as portas, mas eles são
limitados em relação às mudanças
que podem fazer nas condições sociais.
Esses programas também tendem a basear a
qualificação numa única característica,
que nem sempre é fácil atribuir; além
disso, em geral as desvantagens dos indivíduos
dos grupos-alvo são resultado de múltiplos
fatores. Sem compreensão e atenção
aos desafios mais profundos, iniciativas que visem
a simplesmente estender as oportunidades de ingresso
com base numa só característica são
uma estratégia que provavelmente terá
impacto limitado.
Rumo a uma distribuição
justa de oportunidades
A distribuição injusta
da riqueza e da pobreza e as circunstâncias
subsequentes que podem ser atribuídas a elas
são um problema mundial. A maioria dos indivíduos
nasce com vantagens ou desvantagens sem ter agido
para isso. O desafio é encontrar uma solução
que distribua benefícios sociais onde eles
são escassos sem privar deles quem já
os desfruta.
Enfrentar déficits do passado
Um dos dilemas dos programas para
estender o acesso equitativo a todo o espectro de
instituições de ensino superior é
preencher as lacunas de preparo. O problema de despertar
aspirações por um acesso justo às
instituições de prestígio por
parte de estudantes bem qualificados, mas fora dos
padrões, é que esse esforço
é prejudicado pelo desafio de se conseguir
que alunos mais preparados se matriculem. Em março
de 2008, durante um debate público sobre
as lacunas de desempenho no Reino Unido, foi dito
que:
Só 176, ou pouco mais de
0,5%, dos quase 30 mil alunos que receberam três
notas A no A-level no ano passado se qualificavam
para receber refeições gratuitas,
de acordo com dados que mostram que a renda familiar
é o melhor indicador individual do sucesso
escolar da criança.
Elas [as novas estatísticas] foram divulgadas
pelos ministros em resposta a perguntas do secretário
“paralelo” da Infância, Michael
Gove, que disse que elas ilustram a luta das universidades
do topo para recrutar candidatos de alto nível
entre as famílias mais pobres (Curtis, 2008).
É importante não
subestimar o efeito de decisões tomadas por
e para os estudantes durante o ensino fundamental
e médio que atrapalham sua preparação
para o ensino superior. O fosso aumenta porque estudantes
de famílias mais ricas são mais propensos
a reforçar seu aprendizado em sala de aula
com aulas extras para melhorar seu desempenho nos
vestibulares, prática evidente em países
como o Brasil e o Japão.
Quando universidades de elite
buscam diversidade em seu corpo discente, os resultados
revelam um padrão desconcertante de vantagens
e desvantagens. Espenshade, Radford e Chung (2009),
em seu estudo sobre admissão nas instituições
de elite dos EUA, constataram que eram oferecidas
mais vagas a brancos do que a estudantes de origem
asiática; as vagas para hispânicos
eram desproporcionais em relação às
dos brancos; afro-americanos tinham no mínimo
cinco vezes mais chance de ser admitidos que brancos;
atletas duas vezes mais que não atletas;
alunos de escolas privadas duas vezes mais que os
de escolas públicas, e assim por diante (Clark
2009). Em outras palavras, na busca por diversidade,
as escolas de elite determinam as preferências
com base numa série estonteante de variáveis.
Embora os alunos de minorias tendam a ter mais sucesso
em instituições mais seletivas que
em menos seletivas, Bowen, Chingos e McPherson (2009)
advertem que a seleção de estudantes
mal preparados para atender às expectativas
acadêmicas de instituições de
elite coloca-os sob risco maior de não completarem
a graduação que seus pares mais privilegiados.
Alunos que não são
suficientemente competitivos para atrair as escolas
de elite – grupos difíceis de serem
atingidos – tendem a permanecer concentrados
em instituições menos exigentes (geralmente
escolas politécnicas, community colleges,
grandes faculdades sob administração
local). Além disso, esses estudantes tendem
a ficar mais perto de casa por razões econômicas,
familiares e culturais. Isso é especialmente
verdade no que tange a crianças de comunidades
indígenas, que muitas vezes são isoladas.
Assim, a qualidade da educação que
estudantes de grupos sub-representados podem seguir
talvez esteja ligada à geografia (Gibbons
& Vignoles 2009; Piquet 2006).
O impacto das mensalidades
A massificação do
ensino superior, aliada ao aumento da tendência
de se considerar a educação um “bem
privado”, incentiva os governos a, cada vez
mais, adotar uma divisão de custos e sistemas
de recuperação de gastos para o financiamento
do ensino superior.
Antes da tendência de introduzir
fees (taxas) já havia uma carga desigual
de custos para se frequentar uma universidade. Estudantes
de baixas condições socioeconômicas
são mais propensos a batalhar para financiar
os gastos de subsistência e as despesas acessórias
de estudo (livros, materiais etc.) e menos propensos
a estar em posição de abrir mão
de receitas imediatas do que seus pares de classe
média e classe alta que recebem ajuda da
família. Só alguns países dão
subsídios para cobrir de forma adequada o
custo total do ensino superior, e neles a massificação
colocou pressão sobre esses subsídios.
A imposição de taxas
em jurisdições nas quais o ensino
superior inicial de tempo integral era gratuito
é um fenômeno que se espalhou pela
Europa e pela Australásia na última
década. Para assegurar que as taxas não
se tornem uma barreira à participação,
alternativas complexas de ajuda a estudantes (auxílio
financeiro, empréstimos, subsídios)
e de ressarcimento de fees de pós-graduação
por meio de impostos surgiram até em sistemas
tradicionalmente “estatistas”, como
o da Alemanha. Para dirigentes e autoridades, os
sistemas de recuperação de custos
apresentam um terrível dilema. O compromisso
com o ensino superior gratuito (assim como o acesso
aos serviços nacionais de saúde) tem
forte apelo popular, principalmente junto a estudantes
e seus pais. Ainda assim, no passado os benefícios
dos subsídios para o ensino superior não
foram distribuídos igualmente entre todos
os setores da população. Ao mesmo
tempo, as instituições precisam de
receita adicional num contexto de declínio
do subsídio público. O dilema requer
compromissos pouco atraentes, que tenham impacto
desigual sobre diferentes segmentos da população.
Os dados que medem o impacto de
novos sistemas de divisão de custos ainda
são restritos e confusos. Na China, por exemplo,
o rápido aumento das fees não leva
em conta as disparidades de renda entre a população
urbana e a rural. Além disso, as melhores
e mais prestigiadas instituições tendem
a se concentrar nas grandes áreas urbanas,
o que impossibilita sua frequência por estudantes
rurais, cuja renda familiar é insuficiente
para cobrir as mensalidades e o custo de vida nas
caras cidades chinesas (Hong, 2004).
A disposição para
assumir dívidas parece variar conforme a
cultura, mas na maioria dos casos os alunos de famílias
de baixa renda são mais avessos a riscos
e menos propensos a tirar proveito de empréstimos
a juros baixos para estudantes. É frequente
haver menor disponibilidade de empréstimos
para estudantes de baixa renda onde se exigem devedores
solidários ou fiadores. A oferta de crédito
para estudantes de baixa renda teve efeito positivo
na frequência (Johnstone & Marucci 2003;
Canton e Blom 2004). Alguns países recompensam
mérito com bolsas de estudo, produzindo o
efeito perverso (mas não surpreendente) de
oferecer subsídios adicionais a estudantes
mais ricos (Usher 2009). Como sempre, há
a questão de se as políticas alcançam
os objetivos buscados ou algo mais. Na Inglaterra,
foi introduzido em 2006 um sistema de fees variáveis
para estudantes, com uma cláusula determinando
que o governo cobrisse a diferença para as
instituições e posteriormente a buscaria
de volta dos graduados pelo sistema de Imposto de
Renda. Enquanto isso, sob a supervisão de
um órgão recém-criado, o Offa
(Office for Fair Access, ou Departamento para Acesso
Justo), as instituições são
obrigadas a encaminhar uma parte das receitas oriundas
das fees para bolsas de estudo e trabalhos de “extensão”.
Claire Callender reflete:
Em vez de eliminar o preço
como fator na escolha da universidade, que foi fundamental
tanto para a lógica subjacente à introdução
de bolsas de estudo como para a retórica
política em torno de sua criação,
as IES estão usando o preço líquido
a seu favor na briga por alunos. (Callender, a ser
publicado)
É consenso geral que o
ensino gratuito, e mesmo o ensino superior de baixo
custo, não é sustentável na
era da massificação e da crescente
tendência à classificação
do ensino superior como “bem privado”.
O desafio atual é garantir que o acesso e
a igualdade sejam protegidos num ambiente fiscal
cada vez mais difícil para o ensino superior.
Retenção
e persistência na graduação
À medida que a questão
do acesso recebe mais atenção de pesquisadores
e autoridades, torna-se mais evidente que o acesso
maior tem menos impacto social se os programas de
estudo não forem concluídos. Os desafios
para se reter alunos de graduação
são muitos, e são ainda maiores se
o aluno for o primeiro de sua família a se
inscrever no ensino superior, se for menos preparado
que os demais estudantes ou se lutar contra as desvantagens
geralmente associadas a raça, etnia ou deficiências.
Algumas evidências indicam que os alunos com
histórico de desfavorecimento são
mais propensos a abandonar os estudos, mesmo que
sejam qualificados ao entrar no ensino superior
(Chowdry et al. 2008). Embora haja evidência
de que cada ano de estudo no nível superior
aumenta o potencial de renda, o salário de
quem se forma é significativamente maior
(Bowen et al. 2009).
Dados do National Center for Educational
Statistics (Centro Nacional para Estatísticas
Educacionais), dos EUA, mostram que o índice
de graduação em seis anos de estudantes
negros é inferior a 50%, 20 pontos porcentuais
abaixo do dos brancos (Carey 2008). Programas inovadores
demonstram que, a despeito de déficits acadêmicos
pré-universitários e de desafios sociais,
novos alunos do ensino superior podem ser bem-sucedidos
se houver intervenção adequada. O
Care (Center for Academic Retention and Enhancement,
Centro para Retenção e Aprimoramento
Acadêmico), da Florida State University, oferece
uma abordagem ampla e multifacetada para o ingresso
e a graduação de estudantes “difíceis
de serem alcançados”. O Care trabalha
com escolas de ensino fundamental para identificar
os estudantes talentosos a partir da 6ª série
e oferece programas de verão e pós-escolares
para incentivá-los e orientá-los.
Um programa-ponte fornece orientação
acadêmica e social no verão entre a
conclusão do ensino médio e a matrícula
na universidade. Orientação e consultoria
estão disponíveis após a matrícula.
O resultado foi que os estudantes do Care tiveram
quase o mesmo índice de graduação
que seus pares não alunos do Care (Carey
2008).
Há motivos para se duvidar
da afirmação feita anteriormente de
que algum ensino superior é melhor que nenhum;
persistir até a graduação está
se tornando tão importante para oportunidades
futuras quanto o acesso à universidade. Comparados
aos que nunca fizeram um curso de graduação,
parece que aqueles que começam o estudo de
nível superior e o abandonam ficam para trás
em termos econômicos. À medida que
o acesso ao ensino superior se expande, retenção
e conclusão tornam-se tão importantes
para o sucesso (medido como participação
econômica e social após a graduação)
quanto aumentar o ingresso de alunos.
A capacidade de persistir está
relacionada muito diretamente ao sucesso escolar
anterior, e representa outra maneira pela qual as
instituições de ensino superior devem
ter uma motivação forte para contribuir
para a melhoria do desempenho do ensino fundamental
e médio. Elas também exercem influência
muito maior (por meio da pesquisa e de seu papel
na formação de profissionais competentes)
do que frequentemente pensam exercer. Também
têm a opção de parcerias inovadoras
com os níveis anteriores de ensino, como
demonstra o exemplo da Florida State University.
Desafios para liderança
Mais igualdade compromete a qualidade?
Outro dilema é se o aumento
da participação pode ser alcançado
sem comprometer a qualidade do que é oferecido.
Isso certamente preocupa políticos e autoridades.
Eis uma reflexão de um dos Comitês
de Seleção da Câmara dos Comuns
do Reino Unido sobre acesso e igualdade.
Nossos valores e compromissos
democráticos nos pressionam para responder
à velha questão “Podemos ser
iguais e também excelentes?” com um
retumbante “sim”.
(Majority Report of the House of Commons Education
and Employment Committee Fourth Report, Higher Education:
Access, fevereiro de 2001, parágrafo 116)
Excelência é uma palavra usada frequentemente
na retórica política, mas sem muita
utilidade na prática. Quando maiores porcentagens
de grupos etários se matriculam no ensino
superior, haverá necessidade de definições
novas e mais práticas de excelência.
Por definição, à
medida que se passa de 50%, continuar o aumento
da participação significa envolver
pessoas que estão abaixo da média
em termos de desempenho acadêmico, e essas
pessoas tendem a vir de grupos mais desfavorecidos
da sociedade, que sempre foram menos propensos a
frequentar o ensino superior (Usher, 2009).
As instituições
de elite vão conseguir, com pouco efeito,
aumentar a diversidade; essas instituições
sempre estarão em posição de
selecionar estudantes com alto potencial de sucesso
e (muitas vezes) proporcionar o ambiente e os serviços
necessários para que o índice de conclusão
se mantenha alto. Em outras instituições,
a diversidade vai introduzir alunos com níveis
de ensino pré-universitário e talentos
variados, que vão exigir mais acomodação
e flexibilidade em sala de aula.
O relatório de 2000 da
Task Force on Higher Education and Society (Força-Tarefa
sobre Educação Superior e Sociedade),
dos EUA, sugere que o ensino superior deve “combinar
tolerância nos pontos de entrada com rigor
no ponto de saída” (p. 41). O desafio
será colocar essa meta em prática,
dada a realidade das circunstâncias e dos
recursos locais.
Novas pressões sobre o
ensino superior vão provavelmente competir
com o progresso continuado rumo a mais igualdade.
A definição de excelência passou
a estar ligada à noção de “nível
mundial”. Nesse contexto, dá-se ênfase
à produtividade de pesquisa, ao interesse
da mídia, aos destinos dos graduados, à
infraestrutura e ao recrutamento internacional.
Essas são características improváveis
para a maioria das instituições “absorvedoras
da demanda”. Muitos dos elementos de desempenho
de senso comum – tais como a qualidade do
ensino, a ampliação da participação
e da mobilidade social, os serviços para
empresas e para a comunidade, o apoio a comunidades
rurais, além de a comunidades metropolitanas,
assim como contribuições para outros
serviços públicos –, estão
visivelmente ausentes nessa nova visão da
excelência (Watson, 2007: 34-46). Nível
mundial e melhor acesso e igualdade podem sentar
juntos na teoria e na retórica, mas requerem
tipos diferentes de políticas e de apoio.
À medida que mais governos se preocupam com
o desenvolvimento de mais universidades de “nível
mundial”, pode acontecer de o esforço
desviar recursos necessários para acomodar
a participação de novas populações
no ensino superior. Os exemplos a seguir, referentes
ao Reino Unido, delineiam a distribuição
desproporcional do financiamento do ponto de vista
da justiça social. Em maio de 2004 o Funding
Council (Conselho de Financiamento), da Inglaterra,
relatou os gastos da seguinte forma:
• £ 40 milhões para o acesso
de estudantes de graduação em tempo
integral (com base em desvantagem educacional em
diferentes distritos censitários)
• £ 54 milhões para o acesso
de estudantes de graduação em tempo
parcial
• £ 187 milhões para a retenção
de estudantes de graduação em tempo
integral
• £ 56 milhões para a retenção
de estudantes de graduação em tempo
parcial
• £ 13 milhões para ajuda e instalações
para alunos com deficiência
Um total de £ 354 milhões
foi gasto no apoio a maior acesso e retenção.
Em contraste, £ 1,4 bilhão foram empregados
no financiamento à pesquisa. O investimento
em acesso mais amplo representa cerca de 25% do
financiamento relacionado à pesquisa (Higher
Education Funding Council for England, HEFCE, 2007).
Pedagogia e engajamento
estudantil
Os novos ingressantes no ensino
superior oriundos de grupos historicamente sub-representados
não só refletem experiências
pré-universitárias diversificadas
como provavelmente também estarão
propensos a demonstrar diferentes inclinações
e necessidades. Como já mencionado, haverá
maior necessidade de orientação e
de outros tipos de apoio acadêmico, uma vez
que estudantes de escolas pobres de ensino fundamental
e médio tendem a estar despreparados para
as exigências do estudo universitário.
É também provável que haja
um crescente “distanciamento” entre
o ensino tradicional e a cultura e as expectativas
dos alunos de faculdades de primeira geração
e de outros alunos de grupos historicamente sub-representados.
É mais provável que isso seja visto
pelo corpo docente mais como um problema do aluno
do que como um incentivo para o desenvolvimento
de novas pedagogias (Gorard et al. 2006). A ampliação
da diversidade vai obrigar as instituições
a reavaliarem o modo pelo qual oferecem educação
superior.
À medida que a universalização
avança, a maioria dos novos alunos simplesmente
está menos interessada no tipo de ensino
ministrado pelas instituições de ensino
superior existentes ou simplesmente tem menos talento
acadêmico. Novas táticas terão
de ser introduzidas para atrair esses alunos (Usher
2009, p. 9).
Pode haver oferta de cursos percebidos como mais
atraentes (especialmente aqueles que dizem respeito
à saúde, a serviços e a profissões
culturais) e os estilos de ensino podem ser considerados
mais adequados às chamadas “novas”
universidades. O Higher Education Policy Institute
(Instituto de Política do Ensino Superior),
da Grã-Bretanha, detectou nessas instituições
um contato mais frequente com a equipe acadêmica
tradicional (o que exclui assistentes de pesquisa
e monitores), e há evidências de maior
atenção à prática pedagógica
(Bekhradnia et al. 2007).
Alguns países tentam novas
abordagens pedagógicas em instituições
que atendem populações indígenas.
As “universidades interculturais” do
Novo México estão desenvolvendo abordagens
de ensino e aprendizagem congruentes com valores
culturais, idioma e história (Brunner et
al. 2006).
A pedagogia e a organização
dos programas de graduação precisarão
ser reconsideradas, juntamente com medidas de desempenho
e critérios para resultados e excelência,
à medida que o ensino superior se torna cada
vez mais diversificado.
Conclusão
É consenso geral a existência
de uma necessidade mundial de redistribuição
de privilégios. Já não é
admissível a concentração de
benefícios sociais num pequeno segmento da
sociedade. A manutenção dos antigos
padrões de desigualdade vai impedir a expansão
da prosperidade econômica e da democracia.
O acesso ao ensino superior tornou-se um componente
importante na criação de sociedades
modernas, estáveis e prósperas.
O acesso ao ensino superior foi
privilégio de pequenos segmentos da sociedade
até a última metade do século
XX. A massificação da maioria dos
sistemas de ensino superior expandiu as oportunidades
no mundo todo, mas não de forma igual para
todos os setores da sociedade. Hoje os países
tentam enfrentar essas desigualdades por meio de
uma série de estratégias.
Não existem soluções
perfeitas. Os recursos públicos são
limitados e necessários para se lidar com
um amplo espectro de problemas sociais, e nem todas
as necessidades serão atendidas. Algumas
pessoas provavelmente vão perder oportunidades,
mesmo que não tenham sido diretamente responsáveis
por padrões de discriminação
do passado. Os sacrifícios que elas talvez
tenham de fazer podem contribuir para ampliar a
divisão, assim como continuar a impedir setores
da população de ter acesso a oportunidades.
A situação não pode permanecer
estática e as universidades têm um
papel importante a desempenhar.
Apesar de muita retórica,
a partir das evidências sabemos o seguinte
sobre a ampliação da participação:
ela não depende só das decisões
dos departamentos de admissão das instituições
de ensino superior. Os ingressos na universidade
melhoraram a distribuição equitativa,
ao invés de miná-la ainda mais (Gorard
et al. 2006).
O aumento da participação
está ligado à melhoria da qualidade
da experiência escolar de todos os alunos,
em especial daqueles de grupos sub-representados.
Melhorar o sucesso no ensino obrigatório
é vital. A lacuna de participação
no ensino superior entre estudantes ricos e pobres
é explicada em grande parte pelo desempenho
acadêmico fraco das crianças desfavorecidas
no ensino médio (Chowdry et al. 2008). A
eliminação definitiva dos obstáculos
à participação bem-sucedida
requer intervenções muito anteriores
ao ponto de entrada no ensino superior e um aumento
das conquistas por parte das crianças oriundas
de meios pobres em idades ainda mais precoces.
No interior da universidade, há
uma obrigação de se compreender o
padrão atual de recrutamento, orientação
e integração de populações
diversificadas. São necessárias novas
iniciativas para assegurar a retenção
(ou persistência) e o sucesso final de todos
os grupos (tanto no emprego como na graduação).
Isso envolve a manutenção de um diálogo
profissional sobre uma série de questões,
incluindo quaisquer ajustes culturais, curriculares
ou pedagógicos porventura necessários
nas instituições, assim como na arena
das políticas. Há em todo o setor
a obrigação de colaborar e cooperar
para melhorar a progressão. Mais pesquisas
relevantes são extremamente necessárias.
No âmbito das políticas
públicas e do debate, as lideranças
da universidade devem trabalhar em parceria com
as escolas na fase da educação obrigatória,
com outros tipos de instituições sociais
e com empregadores públicos e privados.
Acima de tudo, as universidades
devem se esforçar para conseguir o equilíbrio
certo entre a autorreflexão (por meio de
pesquisa institucional) e a crítica construtiva
dos demais empreendimentos sociais e políticos
que figuram nessa equação. O envolvimento
positivo com o acesso e a igualdade é uma
jornada longa; e, no entanto, vale imensamente a
pena, à luz do compromisso das universidades
com a justiça social.